O painel de encerramento do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate foi dedicado ao colapso do longo prazo, com moderação de Marcelo Neves, sócio da MRN Serviços Financeiros. Sob o signo de Ananke, divindade grega que personifica a necessidade e a inevitabilidade, Fabio Giambiagi, colunista do O Globo e Estado de São Paulo, lembrou que nem tudo no futuro pode ser submetido ao cálculo, e que a previdência privada carrega o peso do tempo e da finitude sobre suas promessas.
Giambiagi provocou a plateia logo no início: se a taxa de juros brasileira se mantiver, um país não pode dar certo no longo prazo, mas se ela cair no ambiente atual, também estamos em apuros, porque poucos têm dimensão dos desafios de um Brasil de juros baixos. Apresentou os números da anomalia nacional: juros reais médios de 15% ao ano na década seguinte à estabilização e Bolsa oscilando entre quedas de 50% e altas de 100%, com retornos médios de dez anos indo de menos 4% a mais 2% apenas pela troca de um ano na amostra.
O peso do tempo ficou evidente na matriz mostrada pelo economista: quem começa a poupar aos 15 anos, num mundo de juros de 6%, precisa destinar cerca de R$ 40 por mês para garantir R$ 1.000 mensais a partir dos 65, enquanto quem começa aos 45 anos, sem juros, precisa contribuir 25 vezes mais. Manter R$ 1.000 por mês por 20 anos exige cerca de R$ 173 mil acumulados, e quem quiser R$ 50 mil mensais, vivendo até os 95 num mundo de juros de 2%, precisaria de cerca de R$ 17,5 milhões.
Na longevidade, a comparação com o Japão serviu de espelho: o país asiático tinha 10,8% da população acima de 60 anos em 1970 e 31,5% em 2010, enquanto o Brasil tinha 10,3% em 2010, o que antecipa o que seremos em 2050, com o envelhecimento se tornando uma rampa cada vez mais pronunciada.
Um dos recados mais fortes foi dirigido ao próprio setor: não preguem ao cidadão comum que migre do INSS para a previdência complementar, porque para ele não há nada melhor do que o sistema público, que promete e paga, com vitaliciedade que nada supera. Sobre a capitalização, a experiência chilena serviu de advertência: a reforma de 1981 nasceu sob ditadura e juros de 20%, e a geração que esperava se aposentar com 100 chegou ao primeiro cheque com 30 ou 35, gerando demanda para o Estado voltar a entrar. Não se deve vender terrenos na lua, resumiu, até porque a conta do efeito cascata mostraria uma economia de apenas 0,8% do gasto atual do INSS.
Giambiagi encerrou com cinco lições: a dificuldade de elevar contribuições espelha a dificuldade de aprovar reformas; a vitaliciedade é caríssima e o paradoxo é que quanto mais se vive, menos se ganha; nova reforma previdenciária é inexorável; o país está viciado em juros reais altos, mão na roda para quem poupa, mas anomalia internacional; e, com juros baixos, cerca de 80% do capital acumulado hoje pelos juros cairia para 38%, exigindo sacrifício muito maior de quem poupa. Fechou com os três momentos dramáticos da vida: aos 10 anos, quando descobrimos que vamos morrer; aos 40, quando descobrimos que vamos nos aposentar; e aos 60, quando percebemos que talvez vivamos mais do que imaginávamos. A realidade é dura, os números são esses e a escolha é sua.
O colapso do longo prazo não é uma sentença, é um convite à escolha consciente: entender que a previdência é um compromisso de décadas e que a educação previdenciária precisa começar cedo, antes que os primeiros 40 anos de vida desperdicem metade da capacidade de acumular. Sob o signo de Ananke, o 8º Seminário se despediu deixando ao setor a missão de transformar números duros em ferramentas de conscientização.