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Prometeu: A humanidade nunca aceitou o acaso - painel de abertura

23/9/2026

A APEP (Associação dos Fundos de Pensão e Patrocinadores do Setor Privado) e o IPCOM (Instituto Brasileiro de Previdência Complementar e Saúde Suplementar) realizaram, em 16 de setembro, o 8º Seminário Previdência Complementar em Debate. Nesta edição, o evento discute o tema “Desafios aos deuses: o preço de tentar controlar o futuro”, inspirado na obra clássica de Peter Bernstein, “Against the Gods” (“Desafio aos Deuses”), referência para quem estuda gestão de riscos e previdência.

A cerimônia de abertura foi conduzida pela jornalista Vanessa Koch e reuniu no palco o presidente da APEP, Arthur Pires, a vice-presidente do IPCOM, Ana Paula De Raeffray, e o presidente do IPCOM, professor Wagner Balera.

Ao abrir a oitava edição do seminário, Arthur Pires agradeceu a equipe de organização, os patrocinadores e as autoridades presentes, e situou o tema da edição na rotina do setor. Para ele, a previdência complementar trabalha com promessas de longo prazo sustentadas por premissas, não por certezas, e essas premissas podem se tornar insuficientes quando a longevidade supera o esperado, os juros se alteram, a inflação corrói valores ou os mercados se movem. “O futuro não se controla, administra-se”, sintetizou.

Pires também fez um alerta ao setor: o seminário não é um espaço de exposição, mas de construção, e os temas do dia, como o olhar do Judiciário sobre o risco, os limites da prudência, a confiança como condição de funcionamento do regime e o erro humano na era da inteligência artificial, demandarão iniciativas concretas, mudanças regulatórias e revisão de processos. “O diagnóstico sem ação é apenas um relatório elegante”, afirmou, lembrando que “os sistemas que sobrevivem não são os mais fortes, mas os que melhor se adaptam”. O verdadeiro desafio, concluiu, é reconhecer o que não se controla e, ainda assim, decidir com método, prudência, transparência e coragem, pagando não o preço da pretensão, mas o preço da responsabilidade.

Na sequência, o professor Wagner Balera partiu da mitologia de Prometeu, o titã que entregou o fogo aos homens e desafiou a ordem dos deuses, para tratar do esforço humano de vencer o acaso por meio do cálculo de probabilidades. Ele mostrou como a técnica atuarial elege riscos que a sociedade passa a tratar como necessidades sociais, respondendo a eles com prestações, e recordou a máxima romana do “incertus quando”: a morte é certa, incerto é o momento. Balera trouxe ainda a contribuição do sociólogo Ulrich Beck e o conceito de modernização reflexiva: vivemos em uma sociedade que produz riscos inéditos, do risco nuclear ao ambiental, e precisa desenvolver a capacidade de refletir sobre os riscos que ela própria cria. Síntese de sua fala: “Se eu pudesse definir previdência, eu não utilizaria a palavra previdência, eu utilizaria a palavra prudência.”

Responsável pela apresentação da obra que inspira o seminário, Ana Paula De Raeffray contou que Bernstein escreveu “Against the Gods” aos 77 anos, marcado pela memória do crash de 1929, que atingiu a própria família. A partir da capa do livro, a pintura “Tempestade no Mar da Galileia”, de Rembrandt, ela percorreu a trajetória humana no enfrentamento do risco: o fogo de Prometeu, os números indo-arábicos como primeiro instrumento de cálculo, os jogos de azar que deram origem à probabilidade com Cardano, a Lei dos Grandes Números e o surgimento da estatística, até a economia comportamental e o reconhecimento do imponderável nas decisões. Segundo ela, o avanço da inteligência artificial generativa desloca o debate da probabilidade para a predição, em que “a arena muda enquanto jogamos”, e devolve a pergunta ao oráculo de Delfos. Fechou com o desejo que resume a edição: “Que as probabilidades estejam a nosso favor.”

O painel de abertura teve Prometeu como símbolo: o primeiro gesto diante do risco é não aceitar o acaso como destino, mas enfrentá-lo com razão, método e responsabilidade.

Saiba mais sobre os demais painéis do Seminário

  • Prometeu: Abertura – A humanidade nunca aceitou o acaso
  • Fortuna: Conversa 1 – O futuro quebrou?
  • Perspectiva – Gestão Ativa, disciplina de risco e inteligência quantitativa em mercados voláteis
  • Apolo: Conversa 2 – O Judiciário compreende o risco na previdência privada?
  • Perspectiva – Mercado de Crédito e Alternativas de Fundos Líquidos
  • Atena: Conversa 3 – A prudência sempre gera os efeitos esperados?
  • Perspectiva – Fundos Imobiliários: resiliência apesar do cenário desafiador
  • Conversa Especial – Selo Patrocinadores do Futuro
  • Fides: Conversa 4 – A confiança está em crise?
  • Dédalo: Conversa 5 – O erro humano ainda é o maior risco?
  • Ananke: Encerramento – O colapso do longo prazo
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