A Conversa 1 do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate, integrou a programação inspirada na obra de Peter Bernstein, Desafio aos Deuses, e discutiu o momento em que premissas econômicas, demográficas e financeiras deixam de se comportar como esperado.
Fortuna, deusa romana da sorte, da instabilidade e das mudanças imprevisíveis da vida, é frequentemente representada com a roda, lembrando que a condição humana pode se alterar de modo súbito. No seminário, ela simbolizou a pergunta que orientou o debate: o que acontece quando a realidade deixa de seguir o roteiro imaginado? A conversa foi conduzida por Fábio Saraiva, diretor da APEP e da PrevDow, e reuniu no palco Denis Sorte, professor, pós-doutor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e Igino Matos, sócio-diretor de Project Finance da Pezco Economics.
Ao abrir os trabalhos, o moderador Fábio Saraiva observou que, ao longo da história da governança dos fundos de pensão, o setor desenvolveu métodos cada vez mais sofisticados para compreender e administrar o futuro, com modelos atuariais, estatísticos e projeções financeiras. Mesmo assim, permanece exposto a uma questão fundamental: o que fazer quando a realidade deixa de seguir o roteiro previsto?
Professor de finanças comportamentais digitais, Denis Sorte partiu de uma provocação: teriam colapsado as premissas tradicionais, exigindo um novo paradigma estratégico para a previdência complementar? Para ele, o setor vive uma tripla pressão: a demografia, com o fim do bônus demográfico; a mudança na forma e nas relações de trabalho, com a expansão da economia por demanda de curto prazo, a chamada gig economy; e um ambiente de novas tecnologias, que gera demandas diferentes e heterogêneas dos usuários.
Sorte apresentou dados que ilustram essa ruptura. Na OCDE, a taxa de fecundidade caiu para cerca de 1,59 nascimento por mulher, bem abaixo dos 2,1 necessários à reposição da população, e a relação de dependência de idosos deve saltar de 31% para 54% em 2052. No Brasil, o envelhecimento é ainda mais acelerado: o que levou 60 anos na OCDE está acontecendo em cerca de 20 anos, e a projeção indica que os idosos alcançarão 37,8% da população em 2070. Somam-se a isso a informalidade, que atinge 38,1% das pessoas que geram renda no país, e o crescimento expressivo dos trabalhadores de plataforma, cerca de 1,7 milhão em 2024, alta de um quarto desde 2022, um público com lacuna na cobertura social.
Para o pesquisador, a automação e a economia digital mudam o emprego em si, tanto nas atividades repetitivas quanto nas de alta qualificação, com impacto direto em quem paga, quanto e quando. O modelo atual da previdência, avaliou, incorpora cenários e recalibra premissas, mas é muito reativo: reage em ciclos periódicos e preserva uma arquitetura contratual e decisória relativamente rígida. Sua proposta, deixada como provocação ao setor, é transformar a previdência em um sistema dinâmico, adaptativo e preventivo, com sensores capazes de capturar movimentos demográficos, de mortalidade, de fecundidade e de trabalho à medida que ocorrem, gerando cenários e gatilhos de resposta. Ele defendeu ainda uma conta modular de proteção e legado, quase customizada, que considere a vida holística do participante, suas outras reservas e rendas, e o planejamento da transmissão de patrimônio. Sorte lembrou que as finanças tradicionais se apoiam apenas na racionalidade e na matemática, e que o comportamento humano, estudado pela economia comportamental, precisa entrar no modelo. Sobre as novas tecnologias, afirmou que vocabulários como criptomoedas, stablecoins e tokenização precisam fazer parte do repertório do setor: não conhecer não é permitido; não usar, tudo bem.
Na sequência, o moderador destacou dois pontos para a realidade dos planos: a necessidade de planos cada vez mais simples, capazes de atrair as novas gerações de participantes, e a revisão contínua de modelos e estudos, que não podem valer por 5, 10 ou 20 anos.
Igino Matos trouxe a perspectiva de quem viveu uma ruptura na prática. Há dez anos, com o fim de grandes projetos e a saída de construtoras do mercado de infraestrutura, o setor precisou se reinventar praticamente do zero. Hoje, o mercado de projetos registra quase uma centena de leilões por ano e o mercado de dívida supera 200 bilhões em emissões, com debêntures de infraestrutura presentes nas carteiras de investidores. Ele explicou que o modelo de project finance se apoia em três blocos, jurídico, engenharia e financeiro, com mapeamento detalhado dos riscos de cada um e acompanhamento diário. Os participantes de mercado sobreviveram e prosperaram porque adotaram modelos de negócio adaptativos, criando serviços sobre a prestação básica: aeroportos que se tornaram centros de comércio e serviços, iluminação pública transformada em cidades inteligentes com segurança e tecnologia acopladas, e até cabos de internet passando pelas rodovias, hoje uma receita acessória das concessionárias. Matos alertou ainda que, no setor, cerca de 60% a 70% do investimento é dívida, e o que o projeto não pode ficar sem é financiamento, e que a sustentabilidade se tornou condição inexorável de acesso a capital e investidores.
No fechamento, os painelistas convergiram para a conclusão de que o futuro não quebrou. Denis Sorte lembrou que, nas definições clássicas, risco é desvio em relação a uma expectativa, e desvio pode ser positivo: o lado favorável deve ser buscado como oportunidade, e não apenas temido. Recomendou trabalhar com taxas de juros altas como cenário-base, tratando qualquer queda como ganho inesperado, e incorporar a instabilidade como variável normal da dinâmica brasileira, e não como exceção. Fábio Saraiva sintetizou: o futuro continua incerto, e o que pode se tornar inadequado é a forma de projetá-lo; desvios entre realidade e premissas não significam necessariamente erro, muitas vezes representam apenas a materialização de um risco conhecido e ponderável, e não há espaço para promessas, tudo precisa estar contratualizado e calculado no momento da decisão. A síntese do painel ficou na constatação de que as premissas mudam, os cenários mudam, os mercados mudam, e a sustentabilidade permanece quando a governança evolui junto com a realidade.
A Conversa 1 encerrou com o recado do moderador: o sucesso não está em prever o futuro com perfeição, mas em ter a governança necessária para se adaptar quando ele surpreende.