A Conversa 4 do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate, discutiu a pergunta que dá título ao painel: a confiança está em crise? Sob o signo de Fides, deusa romana da confiança, da boa-fé e da palavra empenhada, o debate examinou a confiança como condição de permanência de um sistema em que os compromissos atravessam décadas, e a desconfiança como o outro lado dessa moeda.
Na mitologia romana, Fides era invocada em todas as relações comerciais, institucionais e políticas para contratar a confiança entre as partes. Na abertura, a mediadora Daniela da Silva lembrou que a deusa da palavra empenhada tem tudo a ver com o setor, onde participantes e patrocinadores confiam às entidades o futuro de suas vidas, e provocou a plateia com a pergunta que orientou o painel: se perguntássemos aos brasileiros, na véspera, se a confiança está em crise, a grande maioria responderia que sim.
Carla Cristina, diretora de Previdência e Administrativa da Sabesprev, partiu da etimologia para tratar do tema. Confiança vem do latim confidere, ter fé, crer, com o prefixo com, de intensidade, e indica sempre uma aposta no futuro, algo muito pertinente a um setor que aposta no amanhã para pagar benefícios previdenciários. Crise, lembrou, não é sinônimo de colapso: a palavra vem do grego e significa separar, julgar, decidir, termo que os médicos usavam no momento em que o paciente estava entre a vida e a morte. A crise, portanto, requer decisão, e se a confiança está em crise, ela pede uma nova decisão.
A palestrante trouxe dados sobre em quem o brasileiro confia. A família é a instituição mais confiável, com 80% de menções, e os bombeiros lideram entre as instituições, com 86%, enquanto os partidos políticos são os menos confiáveis. No geral, o índice médio de confiança é de 55%, e a confiança no outro, de 52%. O barômetro mundial, por sua vez, mostra um mundo voltado para dentro, com uma mentalidade de confiança insular: as pessoas confiam cada vez mais nos seus núcleos próximos, e, pela primeira vez, as instituições privadas e empresariais aparecem como o setor de maior confiança, no mundo e no Brasil, onde as empresas locais superam as estrangeiras em sete pontos percentuais.
Carla chamou atenção para os números da adesão à previdência. Segundo pesquisa do mercado financeiro, apenas 16% dos brasileiros não aposentados têm algum tipo de investimento, e a previdência privada aparece em penúltimo lugar, com somente 7%, sendo que apenas 3% a 4% dos brasileiros investem em previdência complementar. Para ela, o brasileiro tem uma fé cega no destino, uma confiança excessiva no futuro, e não desconfia dos riscos que virão. A confiança, concluiu, é o carro-chefe de uma entidade de previdência, e o dever fiduciário vai além do moral: receber o dinheiro com prudência, investir e pagar, com lealdade, prudência e transparência nas decisões. Ela destacou que o que é matemático, previsível e técnico, como os investimentos e os cálculos atuariais, é rastreável e auditável, mas é na governança que a confiança entra em jogo, quando conselhos figurativos, conselheiros mal preparados e pressões de patrocinadores podem fazer com que as decisões deixem de ser transparentes. Quando isso acontece, alertou, pode haver um colapso da confiança, e o benefício que será pago lá na frente pode ficar em xeque.
Na sequência, Sérgio Rangel, consultor da Mirador e professor universitário, olhou o outro lado da moeda, a desconfiança. Inspirado em Taleb, que extraiu dos gregos a via negativa, lembrou que sabemos o que está errado com muito mais clareza do que está certo, e que a desconfiança não é ausência, é presença, algo que precisa ser conhecido e mitigado. Citou dados do BID para a América Latina e o Caribe: apenas 10% das pessoas consideram as outras confiáveis, 81% não confiam em partidos políticos e 58% não confiam nas empresas privadas. Listou o que chamou de amplificadores da desconfiança, como impunidade, falta de transparência, desinformação, promessas não cumpridas, incoerência entre discurso e prática, experiências negativas recorrentes, fragilidade da governança e a baixa verificabilidade e explicabilidade das decisões, problema que ganha contornos novos na era da inteligência artificial.
Rangel apontou ainda os vieses cognitivos que fomentam a desconfiança, como o excesso de confiança, o viés da confirmação e a aversão às perdas, e suas consequências, do empoderamento das pessoas à ilusão do conhecimento, citando Tom Nichols e a frase de que a era da informação não trouxe mais sabedoria, apenas tornou todos igualmente confiantes de que estão certos, passando pelas bolhas epistêmicas e câmaras de eco. A saída, propôs, segue a lógica da via negativa: construir a confiança não falando simplesmente de confiança, mas removendo, uma a uma, as razões para desconfiar.
No fechamento, provocado por Danielle Cristine da Silva, Diretora da APEP e Dirigente da Funcorsan, sobre o que é mais difícil recuperar, um déficit financeiro ou um déficit de confiança, Rangel recorreu à parábola do peru de Taleb: 365 dias de cuidado não provam que a confiança está certa, mas um único dia pode provar que ela estava errada. O déficit financeiro pode ser equacionado ao longo do tempo, mas a confiança, uma vez perdida, é quase inabalável de recuperar, e por isso precisa ser preservada como valor inegociável na gestão dos planos de benefícios. A Danielle encerrou desejando que o segmento siga tendo a deusa Fides como norteadora, porque a palavra empenhada e a confiança no plano de previdência precisam orientar os negócios das entidades.
A Conversa 4 encerrou com uma síntese compartilhada pelos painelistas: a confiança é a base de um sistema de compromissos de longuíssimo prazo, e a resposta à sua crise não está em mais discursos sobre confiança, mas em reconstruir, uma a uma, as condições que a sustentam, com governança sólida, transparência e dever fiduciário. Com o debate, o 8º Seminário Previdência Complementar em Debate segue consolidando o espaço de construção coletiva entre APEP e IPCOM, transformando o diagnóstico dos desafios do setor em caminhos concretos para o fortalecimento da previdência complementar brasileira.