A apresentação do painel "Perspectiva, Mercado de Crédito e Alternativas de Fundos Líquidos", que integrou a programação do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate. ficou a cargo de Mateus Campos, Gestor de Crédito das Estratégias Liquidas Brasil da Vinci Compass, que percorreu a evolução do mercado de crédito privado nos últimos anos e mostrou como os fundos líquidos podem gerar valor acima do CDI para passivos de longo prazo.
Campos partiu do contexto de um boom de crédito vivido pela indústria nos últimos anos, com um ciclo de juros baixos no pós-pandemia seguido do atual momento de juros elevados. Nesse cenário, o crédito privado tem se destacado como uma classe resiliente. O Brasil, avaliou, volta a ser aquele país rendista, com o juro real em patamares elevados, o que torna a classe muito atraente, mas também reforça o papel do CDI como o grande carrasco da indústria, a referência que todas as aplicações precisam superar.
A mensagem central do painel, porém, foi desarmar o temor de excesso: apesar do crescimento acelerado do mercado, não se trata de uma bolha. Comparado com mercados mais desenvolvidos, o brasileiro caminhou para um momento de maior eficiência e pulverização. Os grandes bancos deixaram de ser os únicos motores de crédito da economia, e fundos de gestoras independentes passaram a assumir essa posição, o que ampliou a liquidez do mercado. Essa era, lembrou o palestrante, a grande preocupação do setor dez ou quinze anos atrás. Hoje, o mercado está sistemicamente protegido: desde a pandemia, quando o Banco Central interveio e pediu que os grandes bancos criassem books próprios em suas tesourarias para gerar liquidez, o movimento de pulverização só cresceu. A indústria de fundos com pelo menos 5% de crédito privado já soma cerca de 2 trilhões de reais em ativos sob gestão, com volume no mercado secundário ainda maior. Em resumo, uma indústria cada vez mais líquida e saudável, com um passivo cada vez mais pulverizado, o que confere robustez ao sistema.
A partir desse diagnóstico, Campos apresentou as alternativas de fundos líquidos para o público do seminário, sobretudo para passivos de longo prazo que não precisam do capital no curto prazo e podem se beneficiar do efeito compound. Citou o exemplo de um fundo de liquidez diária, que busca gerar valor acima do CDI combinando várias classes de crédito, com exposição a debêntures, letras financeiras e uma pequena parcela em fundos de direitos creditórios. Com meta de retorno de DI + 0,5%, é um fundo conservador que, no longo prazo, acumula retorno superior ao índice. Na sequência, apresentou a alternativa de um fundo D30, com a mesma lógica e meta DI + 1,00% a 1,50%, destacando que o efeito desse diferencial sobre o retorno de longo prazo das carteiras é relevante.
O gestor também buscou relativizar o medo com as notícias de eventos de crédito. O crédito, sintetizou, mimetiza a economia brasileira. Uma carteira com cerca de 40% em papéis bancários fala de Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander; a exposição relevante em debêntures fala de Petrobrás, Vale, Rede D'Or e Localiza. Ou seja, o crédito brasileiro está muito ligado a uma economia que, mesmo em momento de juros altos, apresenta empresas em condição relativamente saudável, com dívidas longas e receita resiliente. O concorrente, brincou, é desleal: o CDI é a visão que todo o mercado olha, mas poucos percebem que o risco de reinvestimento dele é alto, e já houve época em que o país conviveu com juros reais negativos.
O fechamento ficou com o mantra da casa: capacidade de construir um portfólio diversificado para todos os períodos da economia, gestão ativa em busca de boas oportunidades de crédito e preservação permanente de capital, fugindo das cascas de banana. Dessa forma, avaliou, é possível, para passivos de longo prazo, gerar valor relevante sem assumir um risco que não faça sentido para esse público.
O painel Perspectiva reforçou o espírito do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate: diante de um futuro que não se controla, a resposta está em método, diversificação e disciplina de risco. Com a realização, a APEP e o IPCOM seguem consolidando o evento como espaço de construção coletiva para o fortalecimento da previdência complementar brasileira.