O painel "Perspectiva, Gestão Ativa, disciplina de risco e inteligência quantitativa em mercados voláteis" integrou a programação do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate, promovido pela APEP (Associação dos Fundos de Pensão e Patrocinadores do Setor Privado) e pelo IPCOM (Instituto Brasileiro de Previdência Complementar e Saúde Suplementar), realizado em 16 de setembro. A apresentação ficou a cargo de André Caetano, Head de Gestão Renda Fixa, Ligadas e Market Intelligence da Bradesco Asset Management, que percorreu a ruptura das premissas da renda fixa brasileira no pós-Covid e as estratégias que o setor vem adotando para navegar em mercados voláteis.
Com experiência de mercado iniciada em 2000, Caetano estruturou a apresentação em torno de uma pergunta: quando foi que a bússola quebrou? Para ilustrar, utilizou o IMA Geral, índice que reúne ativos pós-fixados, pré-fixados e vinculados à inflação nas proporções da dívida pública e que, segundo ele, é talvez a aplicação em renda fixa mais agnóstica que existe. Até o Covid, as janelas móveis de 12 meses do índice batiam o CDI com grande consistência, em mais de 90% das vezes. No pós-Covid, essa taxa de acerto, o chamado hit ratio, caiu para 20%, e a média das janelas, antes sempre positiva, passou a ser negativa.
A explicação para a quebra da bússola está no nível dos juros. Nos cinco anos anteriores ao Covid, a média da curva de juros brasileira, medida dia a dia ao longo de dez anos, girava em torno de 7,5% ao ano, em termos nominais. No pós-Covid, a média saltou para 12,5%, um acréscimo de cerca de 500 pontos-base. Esse incremento fez com que os ativos de renda fixa com risco de mercado performassem muito mal e levou o investidor a migrar para estruturas que parecessem mais seguras e previsíveis. Caetano lembrou que, há cerca de três anos, chegou a escrever artigo defendendo o IMAB-5 como um dos melhores índices do mercado brasileiro, posição que, avaliou, pode voltar a ser verdadeira, mas o fato é que, no ano passado, pela primeira vez na história desde sua criação pela Anbima, o IMAB-5 perdeu para o CDI em uma janela de cinco anos.
Nesse novo cenário, os pós-fixados passaram a performar bem. O IMA-S, que reúne as LFTs, e o IDA-DI, que contempla as aplicações pós-fixadas com risco de crédito privado, ganharam destaque. O palestrante chamou atenção para um detalhe: até 2020, o mercado brasileiro negligenciava o risco de prazo médio, cobrando o mesmo prêmio para carregar uma LFT de um ano ou de dez anos. Com a queda da Selic, a maior preocupação com o risco fiscal e uma série de outros fatores, o mercado passou a precificar de forma mais adequada o risco desses papéis. Ele destacou ainda o efeito do fluxo: a migração dos investidores dos ativos de risco de mercado para os pós-fixados e de crédito criou um ciclo virtuoso para esses últimos, com spreads médios das empresas em queda contínua, dinâmica que, segundo ele, tem mais a ver com a demanda por esse tipo de aplicação do que com uma melhora dramática do risco de crédito.
Na sequência, Caetano fez uma provocação: o porto mais próximo e mais seguro pode ser uma parada, mas não necessariamente é o destino. Tratando-se de investimentos de médio e longo prazo, é essencial distinguir risco de incerteza. Risco, explicou, a gente mede, monitora, limita e dá orçamento. Incerteza, a gente tenta administrar da melhor maneira, e ela acontece o tempo todo. A eleição brasileira, que historicamente traz volatilidade, estava mais ou menos no script de todos. Já o conflito no Oriente Médio foi algo fora da caixinha. Para mostrar como as incertezas cobram seu preço, apresentou um gráfico com séries normalizadas desde o início do conflito: a taxa de juros de cinco anos dos Estados Unidos no nível mais alto do período, em um contexto de curvas americanas nos maiores patamares dos últimos 20 anos, com o trecho de três a dez anos em torno de 5% e o título de 30 anos em níveis históricos, em uma curva positivamente inclinada, reflexo de questões fiscais que, lembrou, não são exclusividade do Brasil. O preço do petróleo Brent, por sua vez, mostrou boa aderência visual aos movimentos de juros, já que a questão energética impacta a inflação, e o mercado aguardava, para a superquarta da semana, um movimento de alta de juros do Fed. No Brasil, o beta é um pouco maior e os movimentos são mais abruptos, mas o ponto central do gráfico é outro: em alguns momentos, a taxa brasileira performou pior do que a americana em termos relativos, o que revela um fator idiosincrático doméstico, que ele identificou como a eleição, entendida como a probabilidade de continuidade do governo. Nos momentos em que o mercado precifica uma chance menor de continuidade, a taxa de juros brasileira performa relativamente melhor do que a americana, na expectativa, majoritária entre os agentes, de uma condução fiscal mais responsável.
Dessa leitura, Caetano extraiu a grande lição para os gestores: não ter a ambição de acreditar que vai acertar o futuro, porque o futuro acontece lá na frente. A capacidade de navegar em mares revoltos aumenta quando o gestor entende como os principais agentes do mercado interpretam os futuros possíveis e como esses futuros são trazidos a valor presente nos preços. Citou o professor Cortella: o passado dá referência, não dá direção. A referência entra nos modelos, ajuda a construir cenários, inclusive cenários de cauda, mas sempre com a consciência de que podem acontecer. No mesmo sentido, lembrou que taxas longas que pareciam impossíveis há alguns anos, como IPCA+6, hoje estão disponíveis em patamares de 7%, 7,5% e 8% para aplicações de até 30 anos. Como os fundos são marcados a mercado, o risco vem no dia a dia, no extrato, e o investidor que acompanha a carteira diariamente sente o solavanco do mar revolto. Cabe ao gestor, concluiu, administrar bem essa tensão entre o risco de curto prazo e a convicção de longo prazo.
Por fim, apresentou duas iniciativas da Bradesco Asset Management para navegar nesses mares mais revoltos. A primeira foi aprimorar os instrumentos básicos: a área desenvolveu um modelo quantitativo de gestão de caixa que aplica exclusivamente em LFTs, com escolha dos papéis e rebalanceamento que pode ocorrer até em nível diário. Após extenso backtest, o produto está disponível há 12 meses e tem superado de forma consistente tanto o CDI quanto o IMA-S. A segunda iniciativa foi mudar a forma de incentivar a tripulação: a casa passou a avaliar seus gestores de maneira mais qualificada, separando a gestão ingênua, que administra o risco do IMA Geral dentro da volatilidade permitida pelo contrato do fundo, a gestão de beta, em que o gestor ajusta o tamanho do risco que assume, e a geração de alfa, resultado descorrelacionado do direcional do mercado. Quanto mais se premia o alfa, observou, mais o gestor busca oportunidades ortogonais ao mercado, abordagem já implementada no fundo mais antigo da casa, com cerca de 30 anos de história. A apresentação foi encerrada com uma referência à sabedoria de Paulinho da Viola, especialmente pertinente, segundo ele, para os momentos como o que o mercado vive.
O painel Perspectiva reforçou o espírito do 8º Seminário Previdência Complementar em Debate: reconhecer que o futuro não se controla e investir em método, disciplina e dados para administrar a incerteza. Com a realização, a APEP e o IPCOM seguem consolidando o evento como espaço de construção coletiva para o fortalecimento da previdência complementar brasileira.