
Em um ano marcado por mais de R$ 310 bilhões em renegociações desde 2023 e forte volatilidade nos spreads, a palavra de ordem para o crédito privado em 2027 é seletividade. Esse foi o tom do painel "Crédito Privado: prêmio, seletividade e liquidez em um ambiente de transição política e econômica", terceiro painel do segundo dia do Webinar Política e Investimento 2027, da série Horizontes APEP, conduzido pelo head de Crédito da Bradesco Asset Management, Victor Oliveira Tofolo, com mediação de Ana Lucia Yuka Kitamura, consultora de Controle de Investimentos da Fundação Itaú Unibanco.
Victor Tofolo abriu o painel com o balanço de 2026: um ano de muita volatilidade, que afetou tanto empresas de balanço fragilizado quanto companhias de alta qualidade, com o fechamento do mercado primário e melhor composição entre oferta e demanda. Ele apresentou as métricas de precificação do mercado, o IDADI em torno de 1,40 e o segmento high grade em 0,98, e defendeu a gestão ativa como diferencial: "o que não dá para fazer nesse mercado é ficar parado".
Como exemplo, citou a redução gradual da exposição a um emissor que passou por dificuldades em 2026, de 2,5% para no máximo 1% no fundo mais arrojado e 0,3% na média, e, no lado das oportunidades, a adição de nomes como a Localiza, negociada em momentos de estresse a CDI+1,30 e hoje em CDI+1,07.
O especialista destacou o ambiente mais difícil para o crédito, com 109 rebaixamentos de rating contra 51 elevações desde o início de 2025, e projetou uma temporada de seis a doze meses de contínua deterioração, com as agências mais realistas após os estresses recentes. A resposta, disse, tem sido aumentar a diversificação dos portfólios.
Tofolo também chamou atenção para o risco do crédito bancário, com a captação migrando de debêntures incentivadas para fundos bancários, e para o aumento da inadimplência da pessoa física. Nos FIDCs, apontou a baixa qualidade das informações como principal dificuldade, citando os casos REAG e Master, e defendeu um olhar prospectivo que vá além do rating: "olhar o cedente, a estrutura de capital, os mecanismos da estrutura e os prestadores de serviço".
O grande destaque do painel foi o mercado de debêntures incentivadas de infraestrutura. Tofolo lembrou que as fundações não participaram desse mercado, tomado por pessoas físicas em busca de isenção fiscal, e que, após o sobreaquecimento de 2025 e os ajustes de 2026, o setor encontrou estabilidade em torno de CDI+0,50 e NTN-B+0,50 na média.
Com uma indústria de cerca de R$ 270 bilhões, média de IPCA+8,27 e spread médio de 90 pontos-base — com bons projetos negociando entre 170 e 200 pontos —, o executivo provocou: "Será que não é a hora das fundações, que têm passivo de longo prazo e alvo de IPCA+, olharem com carinho para esse mercado?" Para ele, mesmo sem o benefício fiscal, o retorno de juro real mais spread de crédito representa relação de risco-retorno mais favorável que o mercado bancário e o corporativo.
Para o próximo ano, a mensagem foi de cautela com seletividade: a descompressão de prêmios no prefixado e na NTN-B abre espaço, mas a gestão ativa segue como motor. "Hoje, ficar parado, só buy and hold, não é mais a melhor forma de ter crédito nos portfólios", resumiu. No Q&A, Tofolo afirmou acreditar em migração de fluxo para ativos de risco, mas não em compressão relevante de spreads, e reforçou a debênture incentivada como composição interessante para o período.
Na sequência, o Webinar seguiu a programação do dia, com o painel sobre Investimentos no Exterior.