
O menor nível histórico de exposição dos fundos de pensão em renda variável — 7,6%, ante cerca de 20% em 2020 — foi o ponto de partida do painel "Bolsa Brasil: assimetrias e oportunidades reveladas em um ambiente de transição política e econômica", segundo painel do segundo dia do Horizontes APEP. Conduzido pelo sócio e head de Investment Solutions da Galapagos Capital, Diego Condado, com moderação do diretor executivo de Investimentos e Finanças da Visão Prev, Gustavo de Castro Araujo, o debate avaliou o potencial de fluxo para a Bolsa e as oportunidades fora do óbvio.
Diego Condado explicou que dois grandes vetores explicam o desempenho da Bolsa: fluxo de capital e juros. Enquanto os juros elevados pesam contra a classe, Selic em 13,75% e juro real próximo de 7%, o cenário eleitoral e a perspectiva de controle fiscal jogam a favor da entrada de capitais.
O potencial é expressivo: cerca de R$ 147 bilhões, se os fundos de pensão voltarem à alocação média histórica, e cerca de R$ 270 bilhões, se o investidor estrangeiro retornar à média de exposição no país. "O fluxo é o grande driver da Bolsa", resumiu.
Condado contextualizou o movimento do dia seguinte ao primeiro turno, Ibovespa em alta de 7%, aos 206 mil pontos, dólar em queda de 4%, como maior do que o registrado em eleições anteriores, impulsionado principalmente pela guinada das bancadas do Congresso. O ganho, porém, foi concentrado: 46% dos pontos vieram de apenas cinco papéis, Itaú, B3, Petrobras, BTG e Bradesco, enquanto Vale, Suzano e Gerdau fecharam o dia no negativo.
A concentração abre espaço para assimetrias. Com a Bolsa no preço da média histórica de 11 anos, o prêmio estaria fora do óbvio: a TIR projetada das small caps é de 22%, ante 13% das mid caps e 10% das large caps, que estavam em 14% antes do movimento. "Agora é a hora de olhar o patinho feio", disse. A atratividade brasileira também foi reforçada por múltiplos: PL de 11 vezes no Brasil, contra 30 vezes na Nasdaq e 19 no S&P 500.
Entre os catalisadores ainda não incorporados aos preços, Diego Condado citou a entrega de um plano de governo com ajuste fiscal relevante, o principal deles, o anúncio da equipe econômica, movimentos positivos das agências de rating e as pesquisas de segundo turno. Para quem pergunta se deve esperar o segundo turno para entrar, a orientação foi direta: "Eu não esperaria. Eu entraria de pouquinho em pouquinho, de forma gradual", usando parte da banda disponível sem ficar super posicionado nem subalocado.
O painel também discutiu gestão ativa e passiva. Com apenas 9% dos gestores superando o Ibovespa no ano — 19% em 24 meses e 15% em quatro anos —, Condado defendeu um mix com mais representatividade da gestão passiva e dos ETFs, que trazem menor custo e flexibilidade tática, e a avaliação dos gestores por janelas móveis de curto prazo e capacidade de adaptação aos ciclos, em vez de histórico longo.
Em síntese, o painel reforçou que, com a exposição em mínimos históricos e o fluxo como principal driver, há valor e assimetrias dentro da Bolsa, sobretudo fora do tradicional, desde que a entrada seja gradual e respeite o perfil de cada plano. Na sequência, o Horizontes APEP seguiu a programação do dia, com o painel sobre crédito privado.